domingo, 29 de janeiro de 2012

O Conto do Vigário, de Fernando Pessoa

Editora: Centro Atlântico
Ano de Publicação: 2011
Nº de Páginas:40
Que Fernando Pessoa é um poeta intemporal, isso é de conhecimento geral. Que há livros que surgem em fases propícias – tendo em conta os temas políticos, sociais e económicos vigentes – também os há. Este pequeníssimo conto, escrito em 1926, é um deles. O título do conto é um adágio bem popular de todos. Mas de onde vem essa designação? Resposta: a origem de «O conto do vigário» é obra de Fernando Pessoa.

Alguns já foram vítimas, outros, protagonistas. Os vigários podem actuar por conta própria (os mais gananciosos) ou por conta de outrem (intermediários) e são habilidosos em persuadir as pessoas incautas (e não só) variadíssimas inverdades, com o intuito de lhes forjar dinheiro. Alguns são mesmo mitómanos. Directamente ou não, sobra sempre ao Zé-Povinho o seu quinhão a pagar e por vezes, camuflado em pequenas letrinhas – na hora de assinar um contrato - o conto prega-nos uma partida.


Mas falemos da narrativa. Manuel Peres Vigário, de seu nome, é um ribatejano de idade incerta - mas avançada - que vive do cultivo das terras que amanha.
«Chegou uma vez ao pé dele certo fabricante ilegal de notas falsas, e disse-lhe: Sr. Vigário, tenho aqui umas notazinhas de cem mil réis que me falta passar. O senhor quer?».
O Vigário rejeita a oferta e diz: «isso nem a cegos se passa». Depois de muita regatagem por parte de ambos, as notas falsas mudam de mãos. Uns dias mais tarde, nas mãos de outros não tardam a chegar. E quem é inocente, de um dia para outro, passa a ser rotulado de charlatão, burlão, chico-esperto, etc.

Em 1925 (um ano antes de Fernando Pessoa ter escrito este conto) um dos maiores vigaristas da história portuguesa e mundial, protagonizou um dos desfalques mais habilidosos de que há memória: Alves dos Reis (ver aqui). Um caso que serviu de inspiração para Pessoa, para escrever este conto? 


No conto, a moeda de troca era o real (o que reduzimos o espaço temporal a antes de 1911); na história de Alves dos Reis, a moeda era o escudo ($); hoje, a moeda é já outra (€), mas as vigarices continuam.
E quantos contos-do-vigário ainda estão por descobrir.
Este conto sendo verdadeiro, inventado ou inspirado, não tem como lhe tirar o brilharete. Fernando Pessoa, ontem, hoje e sempre - actual.

6 comentários:

teresa dias disse...

Verdade, verdadinha.
Óptimo texto.

Janita disse...

Tal como Fernando Pessoa e toda a sua obra, também este conto é intemporal!

(os contos do vigário são, hoje, mais do que muitos)

Obrigada pela partilha.

André Nuno disse...

Muito bem, Miguel.
Acho que me cativaste com esse "Conto do Vigário". ;)

RobertaFrontini disse...

Ainda bem que disseste que era uma inveja boa, se não ficava triste :(

pensei em ti por acaso, porque quando ganhei esta oportunidade e lá ir tinha a possibilidade de levar um acompanhante, e pensei que terias gostado de ir

beijinhos

Miguel Pestana disse...

Ora se gostaria.

Se não vivesse na ilha, eu ia sem dúvida!

Grazie :)

RobertaFrontini disse...

Pois, eu lembrei-me que vivias longe..mas vês? Pensei no meu primo blogue :)