sábado, 28 de julho de 2012

Até ao Fim | Um Relato Verídico da Secretária de Hitler, de Traudl Junge

Editora: Dinalivro
Ano de Publicação: 2003
Nº de Páginas: 241

Muitos livros sobre Hitler têm sido escritos, por pessoas que privaram directamente ou indirectamente com ele. Muita tinta já se fez correr. Muito papel. Dessas pessoas, provavelmente nenhuma viveu com o ditador nos seus últimos dias de vida. Traudl Junge foi uma delas. A jovem era sua secretária e durante 3 anos privou com Hitler…até ao (seu) fim.
Tudo começou em 1942, quando Traudl Junge - então com 22 anos - foi sem qualquer vontade em ser a escolhida a uma entrevista de emprego. Como ela queria ser dançarina, não estava nada nervosa na dita entrevista. Não obstante ela foi selecionada pelo seu à vontade e com outras candidatas foi convocada para uma segunda audição, mas muito mais rigorosa. Desta vez seria o próprio Hitler a escolher a sua favorita, pois o posto em causa era para uma sua nova secretária.
Hitler escolheu-a simplesmente porque ela era originária de Munique, a sua cidade alemã predilecta. Assim, por mero acaso a jovem passou a fazer parte da comitiva de funcionários do ditador. Não era o trabalho que ela queria, mas como a remuneração era muito boa, e visto ela e a família estarem a passar necessidades económicas, Junge não pensou duas vezes em avançar com o seu destino.
Desde logo, ela relata o seu ponto de vista sobre o homem que, segundo ela, era um chefe e ser humano «atencioso», «humano, «compreensivo», «sensível» e «inofensivo». Como sua secretária, Junge teve que segui-lo em todos os lugares e sabia muitos detalhes de sua vida privada, e muitos deles estão escritos nestas suas memórias. Ela descreve Hitler como um anfitrião gentil que tomava as refeições em conjunto com os seus funcionários - incluindo o chá, logo após o jantar; que a biblioteca pessoal de Hitler era acessível a todos, onde constavam algumas obras de literatura mundial; que ele era vegetariano, não fumava nem suportava o fumo de cigarro; que sofria do estômago e muitas vezes o seu comer refinava-se a puré de batata e ovo estrelado; que gostava de passear na floresta com o seu (único) fiel amigo, o cão Bondi.
Como ela conta-nos, logo após a guerra, essas pessoas com quem ela tomou chá todos os dias foram os responsáveis ​​pelos piores crimes que jamais ela poderia imaginar.
Este livro de memórias dá-nos uma outra visão da personalidade de Hitler, a que não vem nos outros livros. Sem dúvida.
«Hitler quase nunca falava da guerra, e muito pouco de política (...) Humilde e amável enquanto pessoa, megalómano e implacável enquanto Fϋhrer.» (p. 94)
Meses antes do fim da guerra Traudl perguntou a Hitler por que é que ele nunca se tinha casado. Eis a resposta que ele deu, que serve para sublinhar a sua alta dose de megalomania:
«Eu não daria um bom pai de família, e acho irresponsável constituir família quando não me posso dedicar o suficiente à minha mulher. E mais, não quero filhos. A meu ver, na maioria dos casos os descendentes dos génios têm uma vida difícil.» (p. 118)
Uma das passagens centrais deste livro é quando Traudl Junge revive os últimos dias da vida de Adolf Hitler e da sua comitiva de colaboradores, passados na casamata subterrânea, composta por vários compartimentos e pisos - designada em alemão por bunker -, em Berlim de 1945.
Descreve que no dia do suicídio de Hitler, todas as pessoas em torno dele, pareciam como «marionetes sem corda», sem propósito nem direção, como «corpos vazios», «sem alma».
Foi nesses dias de angústia que o casamento de Hitler e Eva Braun aconteceu. De um momento para o outro. Ela retrata Eva Braun como uma mulher vivaz e vaidosa. Junge descreve, inclusive, a última noite de dança de Eva Braun. A secretária escreveu também o testamento político e pessoal ditado pelo próprio Hitler. A 30 de Abril de 1945, às 15:30 marcava o relógio, o tiro fatal foi disparado, estava Traudl Junge numa sala ao lado de onde o som se fez ouvir. 

O estilo de escrita é simples e directo, o que para um livro de memórias é muito pertinente, não maçando o leitor. As muitas notas de rodapé com explicações sobre todas as personalidades mencionadas, são uma ajuda para conhecer a biografia sucinta das mesmas. Estas notas merecem uma nota positiva, passe a redundância.
Em 2002 as suas memórias escritas em 1947 desses 3 anos (1942-1945) foram reunidas em livro. Junge morreu com 81 anos. O seu testemunho, esse é ad eternum.
A co-autora deste livro, Melissa Mϋller, no posfácio do livro, relata alguns excertos de entrevistas que a ex-secretária lhe concedeu um ano antes da sua morte, onde fala sobre as longas depressões que a tortur(ar)am, desde os anos 60,  sobre um cancro que lhe foi detectado.
Um impressionante testemunho.
A salientar que estas memórias que compõem Até ao Fim, foram um dos livros em que se baseou Bernd Eichinger, o autor do filme alemão A Queda - Hitler e o Fim do Terceiro Reich, de 2004.
Finalizando este texto, cito um pensamento do filósofo Sócrates, deixando as interpretações do mesmo para cada leitor:
«Ninguém é mau voluntariamente.»

3 comentários:

Mundo Literário disse...

Você não tem ideia do tanto de livros que tenho sobre Hittler , inclusive "Minha Luta" , preciso urgentemente desse rs
Parabéns pelo blog é diferente de uma forma muito interessante Bjs

Miguel Pestana disse...

Esse título "Minha Luta" escrito por Hitler está na minha lista de aquisições :)

Agradeço o elogio. Venha e comente sempre que assim o desejar.

Anónimo disse...

Também já li este! Sempre temos mais uma perpectiva do que sucedeu realmente.

Gizela Mota