segunda-feira, 30 de julho de 2012

Entrevista a João Lopes Marques

Os estónios levam o livro, tanto o seu teor como o objecto em si, muito mais a sério. As capas são duras, por exemplo. Os rituais muito mais simbólicos. (…) São bastante reservados e criam com o livro uma empatia bem diferente da nossa.


Azul, preto e branco são as cores da bandeira do país que escolheu João Lopes Marques (n. 1971) como seu novo hóspede, há 6 anos. Depois de um par de anos a viver na capital amesterdanesa, o escritor e jornalista decidiu rumar a um novo porto. O destino trouxe-o a uma das cidades medievais mais bem conservadas da Europa: Tallin, a bela capital da Estónia.
O jornalista e escritor escreve artigos de opinião no Eesti Ekspress, o principal jornal estónico, textos esses já compilados no seu livro Minu väga ilus eksiil Eestis, de 2011.
Mesmo residindo fora de Portugal, o autor mantem a sua colaboração nas revistas de viagem portuguesas Rotas & Destinos e Volta ao Mundo. A Europa, a Ásia, Américas, África e Oceânia são, para este andarilho, continentes bem conhecidos.
A prova do seu testemunho in loco sobre pessoas e culturas bem antípodas é o seu mais recente livro Choque Cultural, publicado pela Marcador, que compila as suas mais incrédulas e cómicas crónicas sobre alguns dos países por onde deixou o seu vestígio e/ou vive-versa.
João Lopes Marques é também correspondente da Lusa no trio de países bálticos (Estónia, Letónia e Lituânia).
Da sua bibliografia fazem parte os romances O Homem que Queria Ser Lindbergh (Oficina do Livro, 2007), Terra Java (Oficina do Livro, 2008) e Iberiana (Sextante Editora, 2011), e o seu quarto romance está quase terminado, prevendo-se a sua publicação ainda no decorrer deste ano.
Nesta entrevista o autor conta-nos que não escreve em estónio as suas crónicas e obras, mas em português e em inglês. Curiosamente, na fotografia que cedeu para esta publicação, vemo-lo a ler um livro de Fernando Pessoa em língua estónica! Depois desta antítese de hábitos e costumes, dê-mos as boas-vindas a João Lopes Marques, o lusófono mais famoso de Tallin.

Texto: Miguel Pestana
Foto:  Cedida gentilmente pelo autor
......................................................................................................................................................................

O lançamento do livro Choque Cultural, decorreu no dia 18 deste mês. Muitos curiosos marcaram presença na apresentação?
Para as 18h30 de um 18 de Julho, e juntemos-lhe os 36 graus exteriores, foi surpreendente. Creio que o auditório da FNAC Chiado esteve nos 80 por cento. Uma pequena felicidade. Foi bonito: os espíritos ainda se deixam embalar pela curiosidade.

O leitor que esteja indeciso sobre qual o destino de férias a escolher para este Verão, se ler o Choque Cultural ficará mais indeciso ou nem por isso?
Certamente. E até aposto que passa a considerar a Estónia no leque de possibilidades.

Neste mês de Julho o João Lopes viu nascer dois novos rebentos literários: Estonia, Paradise without palm trees e Choque Cultural. Um mês frutífero…e ainda não terminou (risos)
Pois não. Julho começou por ser o mês dos césares e, pelo menos neste atribulado 2012, tem-me sido bastante augusto. Acho difícil ainda sair um terceiro livro até ao seu final, mas prometo voltar à carga ainda este ano. O meu quarto romance está quase no fim e existe a possibilidade de o publicar, ou na Estónia ou em Portugal, ou em ambos, ainda antes da chegada do próximo Inverno.

Há seis anos que vive na Estónia e foi precisamente neste país que escreveu o seu primeiro livro O Homem que Queria Ser Lindbergh. Esta mudança de país teve alguma mea culpa para o nascimento dessa obra?
Sem dúvida. É um fenómeno tipicamente tautológico: mudei-me para Tallinn porque a cidade me inspirava e a inspiração que Tallinn me emprestou tornou-me bem mais produtivo, o que me fez permanecer em Tallinn, que me continua a inspirar. (Man)temos uma relação muito simpática entre nós. Já é, de certa maneira, a minha cidade, talvez pelo facto de todos os meus filhos terem lá nascido (dez em papel e uma bebé linda em carne e osso).

É autor do livro de microcontos Circo Vicioso, cuja edição bilingue português-castelhano encontra-se já publicada. Como nasceu a sua paixão por esta esteira literária?
Vem da minha adolescência, ainda antes dos vinte. De outra maneira: do meu gosto pelo surrealismo, pelas minudências, da paixão que nutro por Jorge Luis Borges (adoro o verbo nutrir) e de um tropeção bastante improvável num livrito intitulado "Crimes Exemplares", de Max Aub. Sem me aperceber logo, as micronarrativas haviam-se convertido num destino manifesto. 
E, claro, o suplemento DN Jovem fez o resto ao publicar-me. Enfim, achei que tinha jeito para a coisa e ainda continuo a acreditar em tal ideia. Obriga-me a escrevê-los, é uma ginástica muito própria que me entretém o cérebro.

Dentro do naipe de literatura de viagem, qual o seu escritor preferido e que livro mais o fascinou?
Sem quaisquer dúvidas, Bruce Chatwin e Bill Bryson. Mas também o próprio Borges, de todos o mais universal e que se dava ao luxo de dar várias voltas ao mundo por dia sem sair da sua biblioteca. A "História Universal da Infâmia" foi um choque (positivo) brutal para mim. Durante cinco anos ofereci-o em todos os aniversários. Também porque era um livro de bolso muito barato e a minha mesada de estudante mal dava para um abatanado.

Quais as principais diferenças que encontra entre o leitor português e o leitor estónio? Os hábitos de leitura são idênticos?
Book Trailer
Nada que ver. Os estónios levam o livro, tanto o seu teor como o objecto em si, muito mais a sério. As capas são duras, por exemplo. Os rituais muito mais simbólicos. Interessante se atendermos ao facto de serem um povo bastante pagão. Lêem tudo com bastante mais atenção, também porque a comunicação oral não é o forte dos povos fino-úgricos. São bastante reservados e criam com o livro uma empatia bem diferente da nossa. Do nosso lado acredito que tenhamos um lado fantasioso mais favorável à metáfora, à polémica e à abstracção. É óbvio que gosto disso.

Três perguntas numa só: Escreve mais e melhor em português ou em estónio? Como disciplina os seus hábitos de escrita? Um dia escreve em português e noutro em estónio?
Não escrevo em estónio. Por lá escrevo em inglês.. Aliás, o português e o inglês são as únicas línguas em que escrevo os meus originais. Muito raramente em castelhano. Contudo, há aqui algo curioso e surpreendente para mim: ter que começar a redigir crónicas em inglês acabou por influenciar a minha escrita em português: as composições tornaram-se mais claras e concisas para o leitor. Acho que precisava disso. Às vezes, assumo, há um lado rococó em mim que me lixa.. Vivo nessa tensão entre o meu lado brega e a minha pseudo-erudição de viajante. É terrível. Quanto à disciplina, é sair de casa. Tomo o pequeno-almoço com a família, respondo aos emails do dia, pago as contas por netbanking e lá vou eu para um dos meus cinco cafés de Tallinn (ou Lisboa, ou Amsterdão, ou Girona, ou...). Seis horas de criação diária em frente ao um burburinho qualquer. Tem resultado.

O João Lopes é um viajante inveterado, tendo já percorrido todos os Continentes. Recorrendo a três verbos, pode definir o que é viajar?
Em cinco palavras, uma por continente: uma curiosidade que não controlo. 

Qual o endereço desconhecido que urge em si ver desvendado?
Varia todos os dias. Hoje, por exemplo, sinto-me estúpido por não conhecer o Senegal. Apanhei o autocarro número 758 para o Chiado e vim a falar com a Mamã Barr, uma senegalesa que vive em Lisboa há 12 anos. Deixou dentro de mim uma semente qualquer...

Qual o país que já visitou mais vezes, em trabalho?
Vários países europeus. Pela proximidade de Portugal e da Estónia, naturalmente. Contudo, as mais pesquisas mais profundas e sistemáticas até hoje aconteceram na Austrália. Fui lá três vezes e fiquei um mês de cada vez. Em 2005 fui como repórter da revista "Volta ao Mundo" e voltei em 2008 para escrever o meu segundo romance, "Terra Java", que é sobre a descoberta secreta da Austrália pelos portugueses. 

Escreve artigos de opinião em revistas e jornais tanto estónios como portugueses. Para si, no acto de escrever, qual o factor fundamental ou indispensável para o concretizar?
Julgo que tenho uma visão muito própria do mundo. Gosto de muita coisa mas tenho uma enorme dificuldade em identificar-me com as mentalidades alheias. Nos EUA têm uma palavra bonita para pessoas como eu — chamam-lhes "mavericks". É isso: quando escrevo gosto de ser maverick. Dá para rasgar, provocar, questionar...

Foi guionista do programa Cuidado com a Língua, da RTP. Como espectador assíduo que fui do programa, lembro-me que além de ser um espaço lúdico e informativo, tinha também alguma dose de humor. Admite ser o João o culpado por esta última parte, suponho?
Eu, pelo menos, quero acreditar que sim... Enquanto guionista, a minha função foi trazer alguma fantasia ao programa. Levámos quase um ano a afinar o projecto e creio que a dose de ironia e humor não enjoa o telespectador. Antes pelo contrário: tornou-se uma imagem de marca do programa. Sinto-me feliz por isso. Pus muito de mim ali.. 

O João Lopes é também blogger. Qual o seu ponto de vista em relacção ao mundo da blogosfera – na esfera dos blogues literários?
Confesso que vou acompanhando com alguma displicência a blogosfera em português, embora tenha já notado a importância (e o impacto) de certos blogues na formação da opinião e do gosto literários. De resto, já por lá li (caramba, lá li é uma aliteração estranhíssima) de tudo sobre os meus livros. Do piorzinho ao genial, e isso faz-me acreditar que da plutocracia estamos mesmo a caminhar finalmente para a democracia. Parcial que seja, ela impor-se-á um dia, acreditem.

Para o leitor que acaba de ler esta entrevista e ficou com curiosidade em comprar algum dos seus livros, qual o que recomenda em primeiro?
Comprem o "Choque Cultural" porque está fresquinho. É um livro típico de Verão e tem muito das minhas experiências como pessoa e repórter de viagem. Contudo, se quiserem descer um nível em profundidade, ou vários, muitos, então avancem directamente para o meu romance "Iberiana", que é sobre a invenção de uma religião. Curiosamente, também tem muita viagem por lá: é uma revisitação da nossa civilização


Nota: A entrevista foi realizada via e-mail.

1 comentário:

Mónica Ferreira disse...

Gostei muito da entrevista e vou ler o livro recomendado Iberiana, deve ser muito interessante