domingo, 21 de outubro de 2012

Entrevista a António Barroso Cruz


«Mais depressa hoje consigo ‘meter’ um livro meu no Brasil, em França, na Suíça, nos Estados Unidos, na Alemanha ou em Itália do que em Portugal continental.

Um autor com livros de Haiku publicados não procura propriamente um grande protagonismo ou um reconhecimento editorial num mercado (o português) em que muito pouca gente sabe o que é o Haiku…»


Foi com uma vista de 360º sobre o Funchal, no piso descoberto do Hotel The Vine, que o meu interlocutor falou sobre o seu percurso, enquanto pessoa, escritor e viajante.
Está profissionalmente ligado ao Turismo, ramo que o tem permitido viajar com regularidade, em abono da sua profissão e do seu lazer. O autor que autoproclama-se irreverente, vive na ilha da Madeira desde 2001 e os seus livros dão à estampa desde 2003.
Se da sua idade fosse descontado um ano por cada país que já visitou, António Barroso Cruz teria idade negativa. Do seu passaporte consta mais de meia centena de países palmilhados, e o fruto de algumas suas vivências com culturas antípodas, está patente na forma e no conteúdo dos seus textos – em jornais, revistas e livros.
Confessou-me o «medicamento para a alma» de que não prescinde e falou sobre o seu próximo livro: Contos de um pretérito (im)perfeito, que será lançado em finais de Novembro.
Falamos também sobre os livros de haiku, de Tomas Tranströmer – o Nobel que já esteve na Madeira -, e sobre os escritores que cá nascem, os que partem, os que regressam, e também foi alvo de conversa, o estado actual da cultura madeirense.
As últimas perguntas que fiz a António Barroso Cruz, foram em tom provocativo; as suas respostas, em tom incisivo.

Texto e Fotos: Miguel Pestana
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Para quem não o conhece, quem é António Barroso Cruz? 
É um aquariano puro: irreverente, insatisfeito, inquieto, impaciente, desacorrentado, com necessidade de espaço para respirar, de tempo para viver intensamente. Com alto sentido de justiça e de aventura. E é também um sonhador com um bom índice de concretização de sonhos.

Como se define enquanto autor?
Irreverente, rebelde, impulsivo, criativo, erótico, diversificador com uma vontade de experimentação de géneros que não se esgota.

É um escritor maioritariamente de poesia, crónicas e contos. Qual o género que mais lhe agrada escrever?
Maioritariamente de poesia (erótica), apesar do conto ser o género que mais gosto de escrever e que mais me desafia a criatividade.

 
Como classifica o estilo da sua poesia?
Sem querer ser repetitivo…erótico, provocador, ousado.

Poesia(s) do desassossego é um dos seus livros mais provocadores. Que conteúdos o leitor pode encontrar neste livro?
Corpos de mulheres, imagens arrojadas, palavras sem medo, erotismo puro, poesia sem fronteiras.


Santos Pecados e contos do (im)possível é considerado por muitos, como o seu melhor livro. O que diferencia esta obra das outras pertencentes ao seu espólio?
Talvez porque o conto Santos Pecados seja o lugar onde o meu Padre Antunes consegue ser bem mais perverso que o Padre Amaro do Eça…e porque os restantes contos sejam repletos de improbabilidades, de uma loucura assumida e de uma irreverência palavrosa que pode chegar a chocar o leitor.

É um dos pouquíssimos autores em Portugal que tem publicados livros de haiku, nomeadamente Poesia minimalista e micropoesia (O Liberal, 2009 e 2010, respectivamente). Existem poucos escritores a escrever este tipo de poesia ou acha que são as editoras que não apostam nesta variante poética?
É de facto um factor adverso para quem escreve Haiku. Mas também acho que quem escreve este tipo de poesia (oriental) é mais por puro divertimento pessoal, misturado com uma necessidade de introspecção, contemplação e comunhão com a natureza e com o quotidiano. Ou seja, um autor com livros de Haiku publicados não procura propriamente um grande protagonismo ou um reconhecimento editorial num mercado (o português) em que muito pouca gente sabe o que é o Haiku…

Que visão depreende desta forma poética de origem japonesa?Publicado em 2009 pela editora O LiberalPublicado em 2009 pela editora O Liberal
O haiku tem como princípio ‘dizer o máximo através do mínimo’, pelo que passa pela minimalização das palavras procurando projectar grandes imagens através dos sentidos de que todos nós somos portadores.

Prefere lê-los ou escrevê-los?
Aos livros, em geral, prefiro lê-los. Sou ou leitor assumidamente compulsivo…quanto ao género Haiku prefiro escrevê-lo.

O Prémio Nobel de 2011 foi atribuído a um poeta - Tomas Tranströmer - que também tem poesia haikuniana publicada. O António gostaria de ler esses haikus, com certeza…
Com toda a certeza que sim, reconhecendo desde já que nunca li Haiku do Tranströmer!

É agente de viagens, portanto, viaja constantemente. Consegue distinguir quando viaja em trabalho e quando viaja em férias?
É muito difícil já que a linha que separa essas realidades é demasiado ténue. Ou seja, quando viajo em férias, ou por lazer, não me consigo dissociar da vertente profissional (o hotel, o quarto do hotel, a comida, o passeio pela cidade, o museu, o festival anual do destino, o aeroporto – sempre registando detalhes para poder ‘vender’ o sítio ao próximo cliente que queira para lá ir, ou que nem sabe para onde quer ir e aguarda uma minha sugestão).
No âmbito de uma deslocação por motivos profissionais, retiro sempre parte do tempo para mim. Para partir, de preferência sozinho, à descoberta da cidade ou do lugar onde estou, para lhe tentar respirar o ambiente e passar a saber acerca das suas gentes e culturas. E para decidir se em algum momento lá quero voltar em contexto de férias/lazer.

É um andarilho que já marcou presença em mais de cinquenta países. Qual o país, a cidade e a cultura suas eleitas?
Neste momento, e em concreto, 56 países. Em termos de país, definitivamente a Birmânia. Em termos de cidade precisamente o oposto: Nova Iorque. Em termos de gente/cultura, cabo-verdiano e Cabo Verde, especialmente a ilha do Fogo.

Para si, viajar é…?
Evasão, liberdade, ausência, descoberta, aventura, enriquecimento cultural, regresso, sonho, mochila, máquina fotográfica, palavras para trocar, ideias para concretizar.

Quais os seus escritores de viagem, nacionais e internacionais, preferidos?
A nível nacional definitivamente Gonçalo Cadilhe. A nível internacional o Tim Butcher, o Bill Bryson, o Luís Sepúlveda (que também o é) e o Bruce Chatwin.

Entre as artes de escrever e de viajar, qual a que não prescinde?
A de viajar. A escrita atrela-se-lhe muitas vezes, pelo que acaba por ser uma consequência.

Em finais de Novembro vai publicar um novo livro…
Certo. Contos de um pretérito (im)perfeito. No dia 29 pelas 18h30 na Casa da Luz, Funchal. Depois será apresentado em Lisboa em data, hora e local a informar.

Com que regularidade costuma ler?
Diariamente sem falhar. É tipo um medicamento para a alma de que não prescindo.

Ultimamente, tem folheado livros de que autores?
Terminei o Por quem os sinos dobram, do Hemingway, iniciei O sonho do celta, do Vargas Llosa e o Roma, do Steven Staylor já me anda a piscar o olho da prateleira onde está deitado há alguns meses junto a mais uma vintena que aguardam o momento de me contar os seus segredos.

Participa em vários projectos culturais: feiras, tertúlias e apresentações literárias. O contacto com os leitores é importante?
É extremamente importante! É, para mim, a maior recompensa que um escritor pode ter, já que de resto…morre-se pobre. Por isso valorizo imenso o contacto com o público-leitor, sobretudo na vertente infantil.


Que opinião tem sobre a cultura literária “made in  Madeira” e como vê a divulgação da mesma por parte dos órgãos de comunicação regionais?
É fraca. É pobre, falta-lhe criatividade. É muitas vezes limitada pelo território insular. Poucas vezes consegue saltar as fronteiras da ilha e ir mais longe em termos de criatividade e riqueza linguística. É muitas vezes um evento social sem sentido, vazio. Existem alguns talentos comprovados, alguns consagrados registados e muita palha seca. Mas não podemos desanimar, já que por vezes somos surpreendidos por um valor muito acima da média.
A imprensa escrita divulga o trabalho dos autores regionais? Não sabia…
De que forma? Mete o nome, a capa do livro, meia dúzia de pessoas a sorrir para a lente e com croquetes e copos de gin tónico na mão?
Basta não haver um único crítico literário na Madeira para que desde logo todo o restante ‘processo’ de divulgação, interpretação, envolvimento e interesse fique comprometido!
Apesar de tudo a RTP-Madeira ainda consegue ser a que mantém alguma coerência na abordagem à escrita publicada na Madeira através das reportagens e dos programas de cariz cultural. Faça-se-lhe justiça e dê-se-lhes os parabéns!

Poucos são os escritores de origem madeirense com obra publicada e reconhecida no continente. Acha que falta talento ou reconhecimento aos autores de cá?
Talento falta, é um facto. E a maioria, se não todos, os que têm obra reconhecida no continente é porque para lá foram viver, integraram-se bem na realidade jornalístico-literária continental e, seguramente, têm valor. Vejam-se os casos de Herberto Helder, de Viale Moutinho, ou de Ana Teresa Pereira.
Mais depressa hoje consigo ‘meter’ um livro meu no Brasil, em França, na Suíça, nos Estados Unidos, na Alemanha ou em Itália do que em Portugal continental, apesar de haver muita gente que mos pede através do facebook que, para mim, passou de algum tempo a esta parte a ser o melhor veículo de promoção e venda de livros. O que me leva a concluir que a imprensa escrita regional, nesta realidade universal, é perfeitamente dispensável e nada acrescenta de valor.

Acha que deveria haver uma colaboração maior entre editoras e distribuidores livreiros madeirenses e continentais?
Por um lado acho que sim, mas como os preços praticados pelas distribuidoras são verdadeiramente pornográficos, acho que é melhor continuar como estamos e cada autor fazer o ser trabalhinho de casa: promover, divulgar, vender, colocar e sair da sua área de conforto para que depois não se venham lastimar de que não vendem ou o seu trabalho não é (re)conhecido.
Por outro lado acho que não, já que talentos por cá é coisa rara. E as editoras não se dão muito ao trabalho de investigar raridades regionais. É mais na base de uma relação lobística editorial-empresarial que é transversal ao país e muitas vezes ruinosa para os autores. Acredito que dentro de não muito tempo as próprias distribuidoras serão dispensáveis. Eu, pelo correio, coloco o meu livro em qualquer parte do mundo sem custos acrescidos para o leitor. 


Para o leitor que acaba de ler esta entrevista e ficou com curiosidade em comprar algum dos seus livros, qual o que recomenda em primeiro?
Palavras de mal dizer e bem-querer, esse é o título que revela o António enquanto Barroso que não escreve de Cruz. E sempre sem papas na língua.
A partir desse título os restantes (sejam de poesía, infantil de conto ou Haiku) percorrerão o seu trajecto ao encontro do leitor


1 comentário:

Pearl disse...

É sempre bom saber mais um bocadinho do autor!


:)