segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Entrevista à escritora brasileira Adriana Lisboa

É autora de uma dezena de livros, quatro dos quais editados em Portugal: Rakushisha e Azul-Corvo (ambos pertencentes ao catálogo da Quetzal), e Sinfonia em Branco e Um Beijo de Colombina (publicados pela Temas e Debates). Foi-lhe atribuído em 2003, pela Fundação Círculo de Leitores o Prémio Literário José Saramago - um dos mais importantes prémios literários atribuídos no âmbito da lusofonia - pela obra Sinfonia em Branco, que segundo o escritor José Eduardo Agualusa «Não é um livro que se devore: é um livro para saborear (…) O estilo é elegante, sóbrio, delicado.»
A entrevistada nasceu no Rio de Janeiro, viveu na França, passou algum tempo no Japão e vive atualmente nos Estados Unidos. Foi cantora de música popular brasileira e tradutora de autores como Cormac McCarthy. Todavia, «escrever sempre foi a atividade mais genuína» desde a sua infância e é por isso que dedica-se em exclusivo à escrita. De traduzir os outros, passou a ser traduzida pelos outros. Os seus livros já são lidos em variadas línguas.
Marguerite Duras, Machado de Assis e Guimarães Rosa são apenas alguns autores que a inspira(ra)m no acto de escrever.
Em 2012, foi realizado um documentário sobre a autora, intitulado Lisboa. O sobrenome está descortinado. O nome: Adriana.

Texto: Miguel Pestana
Fotos: Daniel Hirsch
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Servindo-se de quatro adjectivos, descreva a Adriana Lisboa. Um por cada decénio da sua vida, respectivamente.
Primeiro decênio: tímida. segundo decênio: ansiosa. terceiro decênio: confusa. quarto decênio: curiosa.

O que recorda de mais precioso da sua infância no Rio de Janeiro?
Tive uma infância muito privilegiada, acho. Morava numa rua pouco movimentada no Rio e brincava muito na rua, talvez minhas melhores lembranças dessa época. Mas também passava as férias no interior do estado, na pequena fazenda do meu avô, e eram as temporadas em que era mais feliz: poder andar descalça por três meses. Os amigos que tinha lá. As brincadeiras absolutamente simples, a casa sem eletricidade, e o modo como tudo me parecia justo.

De que sente mais saudade quando está ausente do Brasil?
De andar na rua e me reconhecer na fisionomia, nos gestos, na voz das pessoas.

O gosto pela música despertou quando?
Cedo. Meus pais eram musicistas informais, minha mãe tocava violão e meu pai cantava. Havia serestas em casa com alguma frequência. No início da adolescência comecei a tocar violão, estudei canto, baixo elétrico, flauta transversa, piano. Meu primeiro trabalho foi como cantora de música popular brasileira na França, aos dezoito anos. Durante toda a adolescência eu passava boa parte do meu tempo livre lendo, escrevendo e ouvindo música.

Ensinar música, traduzir, escrever. Qual a profissão que lhe dá mais prazer?
Escrever, sem sombra de dúvida – e por isso as duas outras se encerraram. Escrever sempre foi a atividade mais genuína para mim, desde a infância. A música é extremamente importante na minha vida ainda hoje, e sou feliz em morar numa casa onde todos fazem música, de um jeito ou de outro. Mas prefiro não ser profissional. Traduzir é uma atividade interessante, mas desgastante e cansativa, que me acompanhou por uma década mais por necessidade do que por prazer.

Algum escritor tem influência no que a Adriana escreve?
Acho que muitos. Cada fase da minha vida teve os seus preferidos, alguns marcaram mais do que outros – Machado de Assis, que li pela primeira vez aos catorze anos e foi uma revolução, José Saramago e Guimarães Rosa, que encontrei aos dezoito ou dezanove (perdi a conta das vezes que reli Memorial do convento e Grande Sertão: Veredas). Também me marcaram muito, em épocas distintas, Marguerite Duras, Marguerite Yourcenar, Yasunari Kawabata, Virginia Woolf, os contos de Clarice Lispector, a poesia de Manuel Bandeira, Alberto Caeiro, Emily Dickinson, Rumi e Bashô. Poderia incluir vários outros nomes na lista. Neste momento ando fascinada por Nabokov e por alguns poetas americanos contemporâneos como W.S. Merwin e Elizabeth Spires, e brasileiros, como Mariana Ianelli e Eucanaã Ferraz.

Vencer o Prémio José Saramago foi um marco na sua vida profissional e pessoal, suponho. Que «peso» atribui a essa egrégia distinção?
O prémio foi importantíssimo por muitos motivos. Eu jamais, jamais teria sonhado em recebê-lo, foi uma surpresa que me pegou na contramão e me apresentou uma imagem de escritora profissional que eu ainda nem tinha de mim mesma (nem sei se hoje tenho). Graças a ele passei a ter uma agente – Ray-Güde Mertin, e hoje Nicole Witt, que herdou sua agência – e o prémio abriu as portas do mercado internacional. O dinheiro do prémio me permitiu pagar a casa onde morava, eu que vivia de traduções e de uma magra bolsa de doutorado. Mas principalmente o prémio me permitiu conhecer um dos autores que mais admirava (e admiro), José Saramago, pela obra que criou e pelo homem que era. Nem sempre as duas coisas vêm de mãos dadas, e não raro conhecer um autor que admiramos é frustrante – no meio literário, a vaidade grassa como uma peste. Saramago era sóbrio, sério e comprometido com uma ética que norteou, me parece, sua escrita e sua vida.

Sinfonia em Branco, Rakushisha e Azul-Corvo são os seus romances publicados em Portugal. Qual das obras aconselha a leitura, em primeiro?
Um beijo de colombina também foi publicado, pela Temas e Debates, mas acho que está esgotado. Eu tendo a julgar, o que talvez seja saudável, que o meu romance mais recente é sempre o mais bem sucedido. Por isso, eu indicaria Azul-corvo. Por outro lado, julgo os três romances bem distintos. De modo que é difícil estabelecer para mim mesma uma escala muito nítida.


A acção narrativa em Azul-Corvo decorre em parte no Rio de Janeiro e em parte no estado do Colorado (EUA) - onde a Adriana vive actualmente. O caminho trilhado pela protagonista do romance, Vanja, assemelha-se em algum aspecto ao da autora que a «criou»?
Ao vir para o Colorado há seis anos, a paisagem física do estado me impressionou muito. Eu era pesquisadora visitante na Universidade do Novo México, então fazia algumas vezes essa viagem de carro de Denver a Albuquerque, no NM. Sempre me tirava o fôlego. E foi assim que esse canto do mundo entrou na minha história.

Azul-Corvo tem-lhe trazido muitas alegrias?
Sim. Tem, principalmente, me rendido muitas respostas incríveis de leitores, e acho que esse contato pessoal, individual, a certeza de que o meu trabalho teve algum impacto na vida de alguém, é o que faz com que tudo realmente valha a pena.


A obra já foi traduzida para quantas línguas?
Foi traduzida para o espanhol (na Argentina, pela Edhasa) e o sérvio (Clio), sai este ano em italiano (La Nuova Frontiera) e francês (Métailié), e no próximo ano em inglês nos EUA e no Reino Unido (Bloomsbury). Estamos conversando sobre uma tradução para o árabe com um editor egípcio. O que acontece na minha carreira é que há países – como a Alemanha e a Romênia, por exemplo – que estão começando agora a traduzir a minha obra, e fazem isso quase sempre pelo Sinfonia em branco. Então, pode ser Azul-corvo venha a seguir na lista.

Em 2012, o cineasta Eduardo Montes-Bradley realizou um documentário sobre sua vida, intitulado Lisboa. Como surgiu o convite?
Eduardo é um cineasta argentino radicado nos EUA. Tínhamos tido um breve contato por email graças a um amigo comum, e quando Azul-corvo saiu na Argentina eu lhe mandei um exemplar. Ele gostou do livro e decidiu fazer o documentário. Veio até minha casa e passamos três dias viajando de carro e filmando o dia inteiro. Foi uma experiência muito interessante.

Este ano será lançado no Brasil uma nova edição de Sinfonia em Branco, obra pela qual lhe foi atribuído o Prémio Literário José Saramago, há dez anos. Contará com um prefácio especial…
Sim, Pilar del Río escreveu um prefácio maravilhoso que muito me alegrou e emocionou. Estou feliz com essa reedição, que espero também aconteça em Portugal.

O seu romance Rakushisha, na tradução americana Hut of Fallen Persimmons, foi indicado ao prémio IMPAC Dublin 2013 (Portugal está representado com Aprender a rezar na era da técnica, de Gonçalo M. Tavares). Obras de David Lodge, Haruki Murakami, Alan Hollinghurst e Umberto Eco, também fazem parte da lista. É gratificante ou/e estimulante saber que o seu trabalho é reconhecido além-fronteiras?
Claro, embora eu saiba que há um grau imenso de sorte e de arbitrariedade em tudo isso. Como em qualquer prémio. A gente comemora, fica feliz com o fato de estar construindo uma carreira apesar de todas as dificuldades enfrentadas por alguém que escreve em português, mas é preciso que nos recordemos de que prémios são atribuídos por pessoas, não por entidades sobrenaturais. E pessoas têm preferências, implicâncias, simpatias. Ganhar e perder prémios não deixa de ser sempre um grande lance de sorte. Ou de azar.

O que pode nos contar acerca do livro que já terminou de escrever e que já intitulou por Hanói?
Não gostaria de contar muito, ainda, mas adianto que é sobre um rapaz relativamente jovem, um músico semi-profissional que não tem muitas ambições e leva uma vida relativamente simples, até que descobre não ter mais muito tempo pela frente, devido a uma doença terminal. A cidade de Hanói aparece no livro como uma espécie de Shangri-Lá, uma terra impossível de páginas em branco, onde tudo poderia, se pudesse, recomeçar.

Será publicado em Portugal ainda em 2013?
Realmente não sei. Deve sair no Brasil em meados do ano, mas julgo que o mais provável é que saia em Portugal mais adiante.

Qual o último livro que leu? Pode transcrever a frase de abertura desse livro?
“Meu avô não gostava de falar do passado.” Diário da queda, do romancista brasileiro Michel Laub.

O nome de um escritor brasileiro de eleição?
João Guimarães Rosa, sempre.

O nome do maior poeta de todos?
Poucos me emocionam como Emily Dickinson. Provavelmente ela não é a maior de todas, mas é a mais próxima do meu coração. Se pudesse escolher dois, Emily viria lado a lado com Alberto Caeiro... o poeta inocente, como disse Octavio Paz.

Lê com que regularidade?
Não tenho ideia... depende do(s) livro(s). Posso me arrastar por semanas com um livro chato, ou devorar em dois dias se for um trabalho interessante como o do Michel Laub, que citei acima. Em geral não leio depressa, e estou sempre transitando entre livros de ficção, não-ficção e poesia. Cada um tem o seu momento, sua hora, e para cada um tenho um fôlego distinto.

Costuma ler para o seu filho?
Costumava, muito. Mas hoje ele tem catorze anos. Estou pensando em pedir a ele que leia para mim...

Tem um blogue, que esteve 6 meses em absoluto silêncio. Foi reactivado, em Agosto último, por seu ensejo. Qual a força motriz para o «retorno» à blogosfera?
Não sei. Na verdade o “momento” do blog passou, e talvez tenha sido um erro reativá-lo. Inaugurei esse blog, chamado Caquis Caídos (a tradução de Rakushisha é “a cabana dos caquis caídos) em 2007, após um encontro de 39 autores em Bogotá, porque queria compartilhar fotografias. Foi crescendo, e dando vazão a reflexões e impressões que não cabiam, naquele formato, nos meus livros. Escrevi muito ali sobre direitos animais, por exemplo, um dos temas éticos que julgo mais importantes no mundo atual. Opinei sobre filmes, livros e música. Contei breves histórias pessoais, compartilhei fotos idem. Mas depois de cinco anos a vontade de prosseguir com o blog simplesmente se esgotou. Voltei a ele em agosto, como sabe, mas estou pensando em fechar as portas de novo. Parece-me que é mais um (longo, caótico, despretensioso) livro que já concluí


Nota: A entrevista foi realizada via e-mail.

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