terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Entrevista a Nuno Nepomuceno

«Têm-me dito que não conseguem parar de ler e têm-se mostrado bastante curiosos quanto à continuação, o que é animador.»

«Encontro-me sensivelmente a meio do segundo volume. Já tem título, e espero acabá-lo até ao final deste ano.»


Ter vencido a 1ª edição de um prémio literário português com O Espião Português, revelou-se a força motriz que faltava ao autor, para ver publicado e «valorizado» o seu livro de estreia, depois da publicação deste ter-lhe sido recusada por várias editoras – o que confirma o quão difícil é, para um autor em Portugal, publicar um primeiro livro, independentemente da sua idade. Excepções, ela as há, nomeadamente os casos de afilhadismo ou até os de sorte, epítetos à parte.
O certo é que o romance policial de Nuno Nepomuceno foi o escolhido de entre as, aproximadamente, 300 obras a concurso. Isto deixa-nos com duas opções: a qualidade das obras que concorreram ao Prémio são muito más, ou O Espião Português é um livro excepcional.
O romance é um thriller intenso replecto de suspense, intriga e contornos imprevisíveis, e que tem como panos de fundo Lisboa, Estocolmo, Londres, Roma e Viena. É o primeiro volume duma trilogia que promete surpreender os fãs de Literatura Policial.
O autor nasceu nas Caldas da Rainha em 1978 e licenciou-se em Matemática pela Universidade do Algarve. A par da escrita, Nuno Nepomuceno exerce a profissão de controlador de tráfego aéreo.
Estando tudo a postos, só falta conhecermos o piloto das respostas seguintes.

Texto: Miguel Pestana 
Foto: Cedida gentilmente pelo autor
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Escrever é uma paixão ou uma vocação?
Por enquanto, uma paixão. O Espião Português é o meu primeiro livro e não ouso sequer falar noutros termos.

E ler, desde cedo teve esse hábito?
Sim, desde muito novo. Quando criança, ia com frequência à biblioteca, e trazia para casa cerca de três livros por semana. Eram apenas estes, porque não me deixavam alugar mais. Fui aquilo que se pode chamar de uma criança sossegada. Brincava frequentemente sozinho e entretinha-me facilmente a ler. Poder viver segundo o imaginário de outra pessoa, é algo que ainda hoje me fascina. Consciente disso mesmo, a minha família também teve a preocupação de me oferecer livros. Ainda tenho a colecção de Os Cinco no meu antigo quarto, em casa dos meus pais. Foi a minha irmã mais velha que me a deu.

Qual o livro que o marcou na sua adolescência?
Não consigo destacar um que me tenha marcado em particular, não no sentido de ter mudado algo. Mas recordo-me com especial prazer de Os Três Mosqueteiros, do Alexandre Dumas. Li um dos volumes apenas numa tarde, na praia.

Deduzo que o Nuno seja um grande leitor de romances policiais?
Sim, é o meu género preferido. Gosto bastante do que o Stieg Larsson fez com a trilogia Millennium, mas também admiro o trabalho de outros como a dupla Nicci French, Ken Follett, ou ainda Craig Russell, cuja série do inspector Fabel considero subestimada.

Mas lê outros géneros literários?
Gosto de variar um pouco, e tenho o hábito de não ler dois livros do mesmo género de seguida. Vou intervalando a literatura policial com alguma fantasia e um ou outro romance histórico. Acho um pouco limitativo estar sempre a ler a mesma coisa, e às vezes, há grandes surpresas. Recordo-me em particular de O Ciclo da Herança, de Christopher Paolini. Foi um familiar que me ofereceu o primeiro livro, e na altura nem sequer o conhecia. Mas gostei imenso. Comprei o último no dia em que saiu, e sem sequer ler a contracapa.

Quando enviou O Espião Português para a organização do Prémio Literário book.it, sentiu alguma epifania de índole positiva ou manteve-se pouco expectante em poder ser o vencedor?
Quando concorri, já tinha decorrido um ano sobre o fim de O Espião Português. Estava a tentar encontrar uma editora onde o livro pudesse ser valorizado, mas até então apenas tinha recebido recusas. E era algo que me estava a deixar bastante frustrado, já que achava que tinha uma história coerente e com personagens bem delineadas. Não entendia o porquê, mas também não havia muito mais que pudesse fazer para o contrariar. Por isso, preferi não criar demasiadas expectativas. Pareceu-me uma boa oportunidade, mas resolvi não me entusiasmar em demasia. Pura e simplesmente, um livro melhor poderia concorrer. E nesse caso, seria justo que o mesmo vencesse.

Qual foi a sua reacção quando soube que tinha vencido o Prémio?
Foi no dia 1 de Agosto. Não estava em casa, mas sim a praticar desporto, e não vi a chamada. Quando a devolvi, até pensei tratar-se do atendimento ao cliente de uma empresa, contra a qual tinha apresentado uma reclamação, já que não reconheci o número e só esperava saber o resultado do concurso em Setembro. Falei com a responsável da book.it durante cerca de 20 minutos e depois sentei-me num banco, nos balneários, e deixei-me ficar em silêncio, por entre uma grande algazarra.  Não contei nada a ninguém durante três semanas. Por fim, disse aos meus pais e restante família mais próxima. O prémio book.it é algo de que me orgulho, mas sempre mantive a minha escrita privada e não sabia como a apresentar aos outros. Só contei aos meus amigos cinco dias antes do lançamento. Perdi um dia ao telefone.

Desde o escrevinhar a primeira frase até ao último ponto d’O Espião Português, quanto tempo decorreu?
Seis anos, com um interregno de quase três, motivado por questões pessoais e profissionais.

Existem autores que iniciam a escrita de um livro e não sabem o que acontecerá no final da história. Aconteceu isso com O Espião Português?
Não. Sempre soube como queria terminá-lo. Tal como os restantes dois volumes, aliás. Se quisesse escrever hoje o fim da trilogia, fá-lo-ia sem qualquer hesitação. Tenho esse capítulo completamente definido no meu imaginário.

Que pode o leitor encontrar neste seu romance de estreia?
Trata-se essencialmente de um romance de espionagem com os elementos clássicos do mesmo. As intrigas, traições, perseguições, suspense, exotismo de algumas personagens, e o trabalho em equipa, são ingredientes que foram propositadamente planeados. Depois, tentei contrapor com outros elementos. Nomeadamente, os valores tradicionais portugueses, como família, amizade, amor e confiança, bem como algum humor. Embora só o leitor possa dizer se o consegui ou não.

Em que se baseou para «construir» o personagem André Marques-Smith (Freelancer), o protagonista do triller e, por conseguinte, da trilogia?
Numa primeira fase, tentei criar alguém que simbolizasse o que melhor tem o mundo contemporâneo. O André, apesar de ser francamente português, é muito cosmopolita. Nasceu fora do país, tem uma família multicultural, e viaja frequentemente pela Europa, a trabalho. Depois, comecei a preocupar-me mais com a dimensão psicológica da personagem. As relações que mantém com os pais, irmã, amigos, e ex-namorada, são muito importantes para o desenrolar do livro. São elas que caracterizam o protagonista e que, no fim, também o vão modificar.

São várias as capitais europeias onde a acção e maior suspense da narrativa decorre. Teve algum intuito no escolher dessas cidades?
Sim. Queria escrever um livro com um ritmo contemporâneo e actual, mas ainda assim com um ambiente clássico. O André defende valores bastante tradicionais, como família e amizade. Por isso, achei que deveria movimentar-se em cenários mais intemporais. Mas ele é também um homem dos nossos tempos. A operação final em Viena de Áustria acaba por sintetizar tudo isto. Tanto o vemos num clube nocturno vanguardista, como numa biblioteca cheia de simbolismo e história como a nacional austríaca.

Muitas das frases do romance são concisas, muitas vezes compostas por uma só palavra. O seu lema é transmitir muito com pouco? Menos com menos é igual a mais. É isso?
É engraçado que refira isso, já que a editora é da mesma opinião. Mas quando estava a escrever O Espião Português adoptei esse estilo, mais com o intuito de fornecer maior rapidez à acção, o que envolveu algum esforço, já que tenho tendência a escrever frases bastante longas.

Tem algum autor preferido, que tenha servido de fonte de inspiração para o livro?
O Daniel Silva é o meu autor favorito e o que tenho como maior exemplo. Li todos os seus livros publicados em português e admiro imenso o seu trabalho. O último capítulo de O Espião Português, em que assistimos ao ponto de vista de uma outra personagem sobre o protagonista da história, é a minha pequena homenagem.

Já se encontra a escrever a continuação d’O Espião Português, certo?
Sim. Apesar de tudo, acreditei sempre que o projecto tinha potencial para prosseguir e não parei após o término do mesmo. Encontro-me sensivelmente a meio do segundo volume. Já tem título, e espero acabá-lo até ao final deste ano. Como tenho outra profissão, igualmente ou ainda mais exigente, não está a ser tarefa fácil. Mas é nesse sentido que me encontro a trabalhar.

Que feedback obteve dos leitores que se deslocaram às várias sessões de autógrafos decorridas nas lojas book.it, durante a campanha promocional do livro?
Felizmente, tem sido bastante positivo. A maior parte dos leitores que não me conhecem pessoalmente, têm destacado o ritmo e emoção da história. Têm-me dito que não conseguem parar de ler e têm-se mostrado bastante curiosos quanto à continuação, o que é animador. Na loja da Maia, contaram-me o caso de um cliente regular a quem foi sugerido O Espião Português e que regressou à loja apenas para agradecer à funcionária, porque de facto tinha gostado muito do livro. Como autor, não posso imaginar maior elogio. Já entre os meus amigos, a reacção tem sido algo mais singular. Há uns dias, disseram-me algo do género: “Quem diria, tu és tão caladinho, e tens uma imaginação destas. Nem imagino o que não te atreves a escrever”.

O Espião Português está à venda em qualquer livraria?
Não. Por questões de regulamento do prémio, os pontos de venda da Sonae (grupo que detém a book.it) têm o exclusivo. Neste momento, O Espião Português só pode ser comprado nas livrarias book.it, e nas lojas Continente e Worten. Só finda a vigência do prémio (Novembro de 2013), é que a ASA o poderá distribuir livremente.

Qual o livro que está lendo? Pode transcrever a primeira frase do livro?
O Leão de Oz, de Gregory Maguire (Casa das Letras).
«Chegou a altura de ela morrer, e ela não morria; assim sendo, talvez definhasse, pensaram, e definhou, mas não se extinguiu; chegou então a altura de receber a derradeira absolvição, por isso colocaram-lhe velas na clavícula, mas ela não consentiu tal coisa.»

É adepto de ler digitalmente ou prefere sentir o tacto e cheiro dos livros?
Nunca li uma edição digital, embora reconheça a necessidade ambiental e pertinência no mundo actual. Mas para mim não há nada melhor que folhear um livro.

Costuma comprar livros online ou desloca-se às livrarias?
Regra geral, vou eu próprio às livrarias. Embora esteja sempre a ler qualquer coisa, não compro tudo, e assim estou a par do que vai aparecendo. Apenas recorro à venda online quando estou à procura de algo que não consigo encontrar, como livros mais antigos de autores que descobri recentemente


Nota: A entrevista foi realizada via e-mail.

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