domingo, 20 de janeiro de 2013

«O Aleph», de Jorge Luis Borges

Editora: Quetzal
Ano de Publicação: 2013
Nº de Páginas:184
A priori estranha-se. A posteriori entranha-se. Em O Aleph, o hiato que separa o desconfiar d’o embrenhar é composto por 184 páginas. Sim, só após a leitura desta obra de Jorge Luis Borges (1899-1986) temos a noção da sua grandeza. Eu, portanto, passei cerca de duas horas a estranhar, até porque estava em branco, não só por ser este o primeiro contacto que tenho com Borges mas também pela inexistente informação (sobre a sinopse, género literário a que pertence, etc.) no frontispício, contracapa e badanas do livro. Esta foi a primeira «indignação» quando tacteei a obra. O que parecia um contra, tornou-se um pró do livro: ler às escuras. O acabamento gráfico rigoroso do livro tanto ao tacto como à visão colmatou a minha suposta «indignação».
As dezassete «peças» - como refere Borges - que reunidas formam um puzzle, perfazem O Aleph (obra disponível nas livrarias desde o dia 18 do mês vigente) e sintetizam uma narrativa de carácter ambíguo; tanto Borges narra o real como o fantástico, como os mistura, criando um jogo pouco profícuo com o leitor. O vocabulário erudito apresentado pelo autor ao longo dos textos também não nos dá «tréguas».
O pretérito e o tempo presente se confundem nas várias tramas e se interagem, como em O Zahir (pp. 105-116), onde é-nos contado a história de um homem cismado pela superstição contida numa moeda, ou em O Aleph (pp. 155-174), peça que dá nome ao livro, em que posicionado num local específico na cave de uma casa está «um dos pontos do espaço que contém todos os pontos», um lugar onde estão «todos os lugares do globo», «o microcosmos de alquimistas». Borges viu o Aleph e em enumeração transcreve todas as suas visualizações, ad infinitum.
Assim, Borges explora a fronteira entre o ilusório e o alegórico transmitindo a ideia do infinito, do imortal. Tudo isto por meio de um estilo conciso, preciso, de plural significado.
Em nota epíloga, o autor argentino descortina o modus operandi da obra, e mais uma vez surpreende-nos.

3 comentários:

Elsa disse...

Grande livro e uma crítica muito interessante, parabéns e continue o bom trabalho!

Phil disse...

Um dos meus escritores preferidos, e também estranhei quando li o que foi o meu primeiro livro dele, que é um pouco o irmão-gémeo deste 'Ficções'. Duas obras-primas da contemporaneidade.

...pft... disse...

De facto, as primeiras linhas que li e leio de Borges são sempre incógnitas. Para depois se desvendarem simplesmente em mundos bizarros e irrealmente reais - os frutos do imaginário borgiano. Apesar de nunca ter lido "Aleph", parece que existem pontos comuns com "Ficções" e "A história universal da infâmia" (como os mundos racionais infinitos e finitos, os paradoxos de Zenão...). No entanto, Borges acaba sempre por reinventar os seus contos e dar ao leitor aquela magnífica sensação de êxtase.

PS: Este blog dá fome de livros.