terça-feira, 23 de abril de 2013

«Paula», de Isabel Allende

Editora: Porto Editora
Ano de Publicação: 2013
Nº de Páginas: 336
«É muito difícil escrever estas páginas, Paula…» (Isabel Allende)

«Depois da minha filha ter morrido e depois de ter escrito Paula, passei três anos sem conseguir escrever…estava vazia, sem nada cá dentro», disse Isabel Allende numa entrevista à TVI, na sua última visita a Portugal para o lançamento de O Caderno de Maya (Porto Editora, 2011). Quem leu Paula, entende o porquê desse hiato na sua escrita. Quem leu Paula, sabe que 1992, foi, para a escritora chilena, um ano muito doloroso. Sabe que as palavras «hospital», «dor», «doença», «morte», abundam (n)o livro, o livro escrito, inicialmente, em forma de carta, uma carta para a sua filha ler futuramente, e tomar conhecimento dos meses em que esteve em coma. Allende contava com o «se» e com o «quando», quando exorcizava a sua dor para o caderno amarelo, para onde extravasava os seus medos.
Este livro fala de e da morte, todavia esse não é o tema que subjaz nesta obra, escrita por entre corredores de um hospital madrileno e na sua casa dos E.U.A.: «A morte anda à solta pelos corredores e a minha função é distraí-la para que não me encontre a tua porta.» (p. 87)
Allende, além de estar devastada, suportava com calma exclamações como: «”Que linda que é a sua filha, pobrezinha, peça a Deus que a leve depressa”» (p.131).
Paula não é uma obra de ficção, é um testemunho, uma catarse, da escritora e jornalista nascida em 1942. Esta obra, inicialmente editada em Portugal pela falecida Difel, em 1995, tem um cariz autobiográfico, percorrendo os momentos de maior felicidade e tristeza de Allende: a sua infância, a importância que a família teve na sua vida, os namoros, o início da sua carreira de jornalista na TV e cronista em revistas, a sua reputação de feminista, o relacionamento que tinha com o seu tio Salvador Allende – ex-presidente Chileno –, o golpe militar ocorrido no Chile em 1973, e por conseguinte o seu exílio na Venezuela, a sua amizade com Pablo Neruda, o acaso que foi escrever o seu primeiro romance, e magnum opus, etc. Uma parcela considerável do livro é uma verdadeira aula de História do Chile.
Paulatinamente, a autora de A Casa dos Espíritos revela aos leitores o seu percurso constituído por inúmeros percalços, perigos, aventuras. É por esse teor íntimo e pessoal que Paula é uma obra de leitura intensa, ora sincopada, ora célere, e por vezes inquietante. A ironia é a figura de estilo que Allende recorre mais na sua escrita, não obstante o seu sarcasmo é benevolente, nunca compreendido como impetuoso.
Como curiosidade cito uma das quatro previsões que uma vidente de Buenos Aires fez a Isabel Allende, na década de 70, e que esta nos conta no livro: «”Um dos teus filhos, Paula, será conhecido em muitas partes do mundo.”» (p. 161)
E é precisamente o que tem vindo a acontecer, como Allende confirmou na mesma entrevista a que já me referi: «A Paula vive dentro de mim, mas também vive no mundo, vive no livro, vive nas pessoas que me escrevem (…) a Paula morreu há 19 anos e todos os dias, todos os dias!, pelo menos, recebo uma mensagem de alguém sobre Paula (…) o livro que mais toca as pessoas é o Paula
Numa parte do livro Isabel Allende, ao se questionar sobre dois «momentos» da vida, afirma: «Silêncio antes de nascer, silêncio depois da morte, a vida é puro ruído entre dois insondáveis silêncios.» (p. 237)


17 comentários:

Moureco disse...

perdi um irmão de 20 anos quando tinha eu 24. A doença foi prolongada, mas não muito, talvez felizmente. O luto foi longo e a dor imensa. Mas nada se compara à dor a que assisti nos meus pais. A sombra dessa dor está-lhes estampada no rosto ainda hoje, catorze anos depois.

Angelina Violante disse...

Eu tenho este livro para ler de uma outra edição. Mas pelos vistos vai ter de ser lidos a intervalos, pois pelos que li da sinopse é muito forte. E vai-me de certeza fazer-me lembrar dos dias terríveis em que estive prestes a perder o meu filho poucas horas depois de ter nascido.

kassie disse...

Li este livro há muitos anos, numa altura em que seguia a autora e mal saia um livro eu comprava e lia logo.
Um livro difícil, dramática sem exagerar no sentimentalismo, muito bem escrito, muito profundo. Gostei muito e recomendo!

Daniel Nascimento disse...

Li este livro há muito tempo e adorei! Fantástico! Recomendo.

Daniel Nascimento

gmgm disse...

Também li este livro há alguns anos e é pesaroso conseguir ultrapassar uma situação deste género. Espero nunca ter essa experiência.

Jorge disse...

Perder alguém querido...é uma dor que não desaparece.
Perdi a minha insubstituível mãe vai fazer 10 anos...e ainda hoje sofro directa e indirectamente por isso!!!

patricia dias disse...

Estou ansiosa por ler este livro. Adoro Isabel Allende

Mel disse...

Já li! :)

Cristina Ventura disse...

Ainda não li este livro mas suscita-me muito interesse. Parece uma história muito intensa.

Marisa Luna disse...

Boa tarde!
Os livros de Isabel Allende são verdadeiras obras de arte. Umas vezes compreendo-os e adoro-os (como "A Casa dos Espíritos"), outra custa-me a entrar na história e fico com eles a meio. Mas, pelo que leio deste, acho que irei adorá-lo.

macy disse...

Uma leitura comovente... li há alguns anos e tocou-me profundamente. Lembro-me de ter de para inúmeras vezes por causa da tristeza que me causava. Ao mesmo tempo foi uma leitura bela...
Teresa Carvalho

Carla disse...

Sou fã desta escritora, estou curiosa em relação a este livro <3

Sónia Rodrigues disse...

Nunca li o livro mas depois de ler este post sem dúvida que está na lista dos livros a ler. Gosto muito da escritora, já li muitos livros de ficção dela e a julgar pela qualidade da escrita, Paula deve ser um livro arrebatador.

Célia disse...

Já li este livro há bastante tempo. Gostei bastante, como é comum com esta autora.

Norma Gondar disse...

Já li este livro!
Simples, comovedor, sincero, e claro triste, mas sem ser piegas!

Gostei muito

Ana Sargo disse...

O meu segundo livro favorito de Isabel Allende... Claro que nada se compara à Casa dos Espíritos, mas os livros biográficas da Isabel são sempre fabulosos de ler, mesmo tratando dum tema tão triste.

Bitinha disse...

Este livro é simplesmente fabuloso...recomendo vivamente a todos os que puderem adquirir ou até mesmo pedir emprestado!Boa Leitura!