sábado, 13 de julho de 2013

Entrevista a Pedro Miguel Rocha

Nos últimos cinco anos publicou três livros, Juntos Temos Poder (2009), Chegámos a Fisterra (2010) e O Eremita Galego (obra vencedora do Prémio Literário Maria Ondina Braga 2011), e foi co-autor da obra Já não se fazem Homens como antigamente (2010). Sobre este entrevistado do Silêncios que Falam, o ex-Presidente da República Mário Soares afirmou: «É um escritor de contagiantes sonhos e utopias.»
O escritor é licenciado em Ensino de Português e Inglês, contando com uma Pós-Graduação em Ciências Documentais. Atualmente, reside em Lisboa, onde trabalha como professor e revisor de texto para a Porto Editora.
Falo de Pedro Miguel Rocha, que gentilmente aceitou ser entrevistado para este blogue, perfazendo assim a décima segunda entrevista aqui publicada. O autor afirmou ser «um português de alma galega», e explicou o porquê do encantamento e afeição que sente pela Galiza; revelou qual dos três romances que escreveu ser o seu preferido; e desvendou um pouco o que os leitores poderão esperar do seu próximo livro: «São contos carregados de originalidade que nos fazem sonhar desmedidamente com um Mundo melhor, mais justo, mais solidário e humanizado.»
Peregrina também e conhece melhor os caminhos da vida e da obra de Pedro Miguel Rocha.

Texto: Miguel Pestana
Fotos: Cedidas pelo autor
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Servindo-se de cinco adjectivos, defina quem é Pedro Miguel Rocha.
Considero-me emotivo, sonhador, impulsivo, determinado e solidário.

Ser escritor foi um objectivo, uma necessidade ou um acaso?
Um objectivo, no sentido que, desde jovem, senti a necessidade de escrever e de partilhar as minhas ideias, reflexões e sentimentos. Quando era adolescente, nos anos oitenta, com a limitação que havia ao nível editorial, tinha, já, a ambição de publicar um livro. Por vários motivos, tal só viria, no entanto, a suceder muitos anos mais tarde, em 2009, com o lançamento da minha primeira obra: Juntos Temos Poder.

Nos seus três romances existe um predominante comum: algumas personagens são originárias da Galiza: a Dulce, de Fisterra (Juntos Temos Poder), Xosé Perez, de Vigo (Chegámos a Fisterra) e Jorge Barros, que, apesar de ser natural do Porto, resolve mudar-se para Muxía (O Eremita Galego). Porquê?
Na verdade, as minhas obras, tanto ao nível das personagens que crio, como dos enredos que imagino, espelham o carinho que sinto pela Galiza. Aprendi, no final dos anos noventa, a apreciar a sua cultura, o seu património e os seus deslumbrantes recantos naturais. Assim, quando escrevo, a minha imaginação voa, naturalmente, até um dos territórios que mais felicidade me proporciona.

Frequentou um curso de Galego e já colaborou com o Centro de Estudos Galegos da Universidade do Minho. Desde quando nasceu o seu interesse pela língua e pela cultura da Galiza?
Este meu interesse surgiu quando resolvi inscrever-me num curso de Galego na Universidade do Minho, em 1998. Tive o prazer de conhecer um excelente professor – Pedro Dono – que me incutiu o gosto pela literatura e música galegas. As visitas regulares à região consolidaram o meu apreço pela Galiza e fizeram-me sentir – creio que para sempre - um português de alma galega.

Conhecer a história galega é conhecer também uma parte da história portuguesa. Para além da proximidade geográfica há muitas afinidades históricas, não acha?
Sem dúvida. Teixeira de Pascoaes afirmava que “A Galiza é um bocado de Portugal (…)” e muitos intelectuais galegos consideram o nosso país como o sul de uma Galiza que não se cumpriu na íntegra. Há, de facto, muitas afinidades, começando pela língua, a qual, durante séculos, foi comum e terminando na geografia dos nossos territórios. A História separou-nos no século XII, quando a nossa independência foi conquistada não só relativamente ao poder oficialmente soberano do Reino de Leão, mas mais ainda relativamente ao poder religioso do arcebispo de Santiago de Compostela. O presente já tem trazido frutíferas aproximações entre os dois lados do rio Minho e estou em crer que o futuro trará, inevitavelmente, novas uniões.

O seu primeiro livro já se encontra na 2ª edição. Que feedback tem recebido dos leitores, desde que o livro foi publicado?
A minha primeira obra, Juntos Temos Poder, foi, de facto, reeditada, com uma nova “roupagem” no passado mês de Dezembro. É um livro que penso que agrada a todas as gerações (opinião suportada no feedback que vou recebendo), uma vez que alberga uma linguagem simples, directa e muito sentimental, abordando várias vertentes da dimensão humana. É, na minha opinião, um manual de sonho, de esperança, de emoção e, ao mesmo tempo, de utopia.

Dos seus romances, Juntos Temos Poder é o livro que mais me cativou a atenção e reflexão. Sente-se, quando o lemos, que ele foi escrito com sentimento, ou não fosse a temática central que o adorna um assunto doloroso de abordar…
Como referia na resposta anterior, o meu primeiro livro está recheado de sentimentos. Ele espelha muitas das latitudes da minha alma e nas suas páginas podemos encontrar as minhas principais ideias relativamente ao Mundo em que vivemos, muitos dos meus anseios e grande parte dos meus sonhos. Contém, igualmente, grandes doses de esperança, uma vez que a história tem início num cenário triste e deprimente – um campo de refugiados no norte de Moçambique – e termina oferecendo diversas soluções para os males do nosso Planeta.

Em Chegámos a Fisterra narra a história misteriosa e perigosa da vida de um livro que esteve prestes a ser destruído devido ao seu forte teor revolucionário. Como nasceu a ideia para este romance?
Curiosamente, surgiu a partir das recusas de publicação que recebi por parte de algumas editoras relativamente à minha primeira obra. Comecei a imaginar que pretendiam censurar o Juntos Temos Poder com receio do impacto que este poderia vir a ter junto dos poderes instituídos. Paralelamente, ao visitar a biblioteca pública de Old Harlow, em Inglaterra, imaginei que o tal livro perseguido e escondido estaria misteriosamente escondido no pequeno depósito daquela instituição. Até ao momento, continua a ser o meu livro preferido. A construção do seu enredo proporcionou-me imenso prazer.

Que significado teve para si vencer o Prémio Literário Maria Ondina Braga, em 2011?
Obviamente que foi um marco importante para mim, na medida em que trouxe um reconhecimento institucional à minha escrita. No entanto, o melhor reconhecimento que posso ter são as reflexões e as mudanças que os meus livros possam suscitar junto dos leitores.

O Eremita Galego é o último livro que publicou e a meu ver o estilo que o caracteriza é diferente do que utilizou nos romances anteriores. Notei uma escrita poética, filosófica…
O Eremita Galego foi escrito propositadamente para concorrer ao Prémio Literário Maria Ondina Braga. Como tal, a minha escrita, naturalmente, buscou novas abordagens e territórios - como refere - um pouco mais poéticos. Não deixa, porém, de transportar, tal como os outros, os meus sonhos e as minhas utopias.

O seu próximo livro ainda não tem data de publicação, mas o título já é conhecido: Contos Peregrinos. O que podemos esperar deste livro?
O livro Contos Peregrinos traz-nos um conjunto de treze histórias verdadeiramente peregrinas, uma vez que estas apresentam caminhos inovadores para a resolução de determinados problemas que se colocam à sociedade mundial. São contos carregados de originalidade que nos fazem sonhar desmedidamente com um Mundo melhor, mais justo, mais solidário e humanizado.

Para além de se dedicar à escrita, que mais preenche os seus tempos livres?
O tempo vivido no seio da família; conversando, lendo, apreciando bons filmes, nadando, passeando e usufruindo da Natureza.

«Chega-se a ser grande por aquilo que se lê e não por aquilo que se escreve.» É uma frase de Jorge Luís Borges. Concorda?
Plenamente. Chega-se a ser grande pelo manancial de cultura que vamos adquirindo através das nossas leituras, mas não só; a verdadeira grandeza está em colocar em prática os bons ensinamentos no nosso quotidiano, junto do próximo.

Que estilos literários e que autores lê?
Não costumo, na verdade, orientar as minhas escolhas por géneros, mas sim por autores e, sobretudo, pelos temas e pelas mensagens que estes pretendem transmitir. Tenho sido acompanhado, entre outros, por livros de Jorge Luís Borges, Agostinho da Silva, Gabriel Gárcia Márquez, Vargas Llosa, Ignacio del Valle, Carlos Ruiz Zafón, Susana Fortes, David Lodge, Mário de Carvalho, Francisco José Viegas e Luís Miguel Rocha.

Qual o último livro que leu? Pode transcrever a frase de abertura desse livro?
Acabo de ler Que Importa a Fúria do Mar de Ana Margarida de Carvalho. A obra – finalista do Prémio Leya em 2012 – começa desta forma: “Tersa gente esta, de almas baldias, vontades torcidas pelo frio que aperta, amolecidas pelo sol que expande.”


Página do autor na web

Nota: A entrevista foi realizada via e-mail.
Os meus textos opinativos sobre Juntos Temos Poder, Chegámos a Fisterra e O Eremita Galego.


2 comentários:

Marcelo Rodrigues disse...

Devo confessar que não conhecia este autor, mas esta entrevista atiçou a minha curiosidade :)

patricia dias disse...

Vou comprar uma obra deste autor definitivamente:)