domingo, 21 de julho de 2013

«O Segredo de Compostela», de Alberto S. Santos

Editora: Porto Editora
Ano de Publicação: 2013
Nº de Páginas: 480

Santiago, personagem do livro O Alquimista, de Paulo Coelho, caminhou na imensidão do deserto egípcio, procurando sempre escutar o que o seu coração dizia, dando motricidade ao seu sonho. Um outro peregrino bem conhecido da literatura, criado por Hermann Hesse, é Siddartha, que abdicou da sua vida material e enveredou-se numa longa viagem existencial ao encontro da paz espiritual. Um outro personagem não-fictício da nossa História, que viveu na Galécia (actual Galiza), na obsoleta Hispânia, no século IV, é Prisciliano, um homem amado e odiado, uma figura controversa, que tem suscitado ao longo dos tempos o interesse de estudiosos e pensadores, como Agostinho da Silva.
Sendo uma figura que através dos seus ideais religiosos despontou polémica no seio da Igreja, logo na sua era primordial, e tendo sido, como Alberto S. Santos, o autor de O Segredo de Compostela, revela numa recente entrevista televisiva, “um homem que viveu para além do seu tempo”, é compreensível que o seu legado tenha ido se desvanecendo, ao longo dos séculos.
“Ao longo dos tempos, um inquietante enigma paira sobre Santiago de Compostela: a quem pertencerão os restos mortais que ali se cultuam?” Esta é a questão vinda no preâmbulo desta terceira obra do autor, que desde o início prende a atenção do leitor, sendo que só nas páginas finais ele terá a resposta. Mas quem foi Prisciliano? Por qual caminho este líder espiritual se enveredou, para gerar tantos atritos e inimigos? Por que foi este jovem cristão galaico acusado de heresia, se ele fora um estudioso das Sagradas Escrituras, e um “buscador” da verdade, do Uno? Prisciliano só tentou desencadear uma revolução espiritual, nunca religiosa, e pagou por isso. Foi decapitado, decorria o ano de 385. O certo é que ele deixou uma marca espiritual muito forte no Ocidente da Península Ibérica.
A ideia central que subjaz neste romance ficcional construído em torno de factos históricos é fazer com que as pessoas tenham consciência que as peregrinações a Santiago de Compostela, que são realizadas por fiéis há mais de mil anos, podem fazer parte de um pacto da Igreja para angariar cada vez mais dinheiro, perdão… devotos. Em Espanha o tema é “incómodo” e oculto, — tal como o túmulo enterrado na cripta da Catedral espanhola. Como Prisciliano, o personagem ficcional, afirma: «Devemos conhecer para compreender, conhecer para concordar, conhecer para discordar» (p. 179)
Entrando em terrenos religiosos delicados, tal como já o fizeram escritores como José Rodrigues dos Santos e Luís Miguel Rocha, Alberto S. Santos apresenta uma obra sobre uma figura pouco conhecido das pessoas, que no entanto é dono de uma história fascinante, que continua a despoletar mistério, suspense, intriga, ou não estivesse em causa um dos maiores paradoxos da cristandade.
Assim, o objectivo de Alberto S. Santos é original, excluindo os limites da história e da ficção (o significado das rosas azuis; um homem e um cão, que aparecem tanto no ano IV como no ano XIX, em momentos cruciais da vida do jovem galego; as cenas sensuais entre ele e Egéria (apetrechadas de subtileza por parte do autor).
O resultado é uma biografia histórica caleidoscópicamente incentivante, escrita com o saber do autor de A Escrava de Córdova (2008) e A Profecia de Istambul (2010), que efectuou um meritoso trabalho de pesquisa histórica, que reflete-se na verosimilhança com que os factos do séc. IV são apresentados no decorrer da trama. Doutrinas várias como o gnosticismo, espiritualismo, ascentismo, meditação, paganismo, cristianismo, são abordadas com rigor na obra que centra-se quase na totalidade no século IV, variando apenas de cronologia no preâmbulo e epílogo, que passam-se no séc. XIX, quando um cardeal decide fazer escavações na cripta da catedral de Compostela.
De leitura compulsiva, este é um livro sobre um peregrino; um livro que fez de mim, leitor, um peregrino; um livro que deve peregrinar, além-fronteiras — pelo menos tem sido bem aceite pelos leitores portugueses, pois no momento que escrevo este texto O Segredo de Compostela, lançado no dia 22 de Maio, já encontra-se na 2ª edição.

(Texto publicado na revista Mais, do Diário de Notícias da Madeira, em 21/07/2013)


8 comentários:

Morrighan disse...

Um livro fantástico e uma crítica que lhe faz justiça. Tanto a obra como a opinião dão gosto de ler :)

Alberto S Santos foi uma grande surpresa para mim (isto porque esta foi a primeira obra que li do autor) e penso que não descansarei enquanto não ler os seus restantes trabalhos.

Obrigada e continuação de um excelente trabalho.

Miguel Pestana disse...

Obrigada pelo comentário.

Este foi o primeiro livro também que li do autor, e tenho o mesmo objectivo: ler os outros dois.

Arnaldo Santos disse...

Uma biografia histórica, essencialmente do século IV, de um já especialista sobre romance histórico, do século XXI, Alberto S. Santos.

Mel disse...

Adoraria ler este livro!
Melissa Nogueira

lady hélène disse...

Vi o autor apresentar o livro, se não me engano na SIC Notícias, e desde então que faz parte da minha wishlist. O contexto histórico pareceu-me muito interessante.

Suue Ferreira disse...

Nunca li nenhum livro deste autor, mas já ouvi falar tão bem deste livro. Provavelmente vai ser um dos próximos que vou ler :)

Angela Caçador disse...

Hoje em dia é tão raro ler um bom livro, escrito originalmente em Português, que ficamos maravilhados com estes.

VJ disse...

Este está na minha lista de futuras leituras :)