sábado, 19 de outubro de 2013

«O Último Cabalista de Lisboa», de Richard Zimler

Editora: Porto Editora
Ano de Publicação: 2013
Nº de Páginas: 352

Em 1990, em Istambul, é encontrado na casa de um advogado sefardita (descendente de judeus originários da península ibérica) uma passagem secreta que oculta vários manuscritos datados da primeira metade do século XVI, da autoria de Berequias Zarco. Richard Zimler (n. 1956) estava como hóspede nessa casa aquando desta descoberta e começou a ler esses pergaminhos. Logo percebeu que alguns desses escritos antigos relatavam com precisão o massacre de Lisboa de Abril de 1506, acontecimento que perdura na história como um dos mais desumanos e sangrentos que vitimou centenas de judeus, que foram alvo de torturas impetuosas e muitos desfeitos em cinza no Rossio. Zimler decidiu transcrever o relato de Berequias sob a forma de um mistério, dividindo o mesmo em três partes e vinte capítulos. Segundo palavras do próprio: «No seu conjunto, a obra permanece, assim o espero, fiel ao espírito do autor.»
No reino de D. Manuel, entre a comunidade judaica lisboeta vive a família do ilustrador de livros e membro de topo da sabedoria que investiga a natureza divina, a cabala. Abraão Zarco é um homem de segredos que passa muito do seu tempo na cave, tida como templo da prática da Cabala, da ilustração de livros e esconderijo da sua casa, caso haja algum confisco algum dia por parte dos frades que acusam os cristãos-novos de serem a causa de fome e de doença que ocorre na cidade. Abraão nunca deixava ninguém entrar na cave sem autorização. Quando ele é encontrado morto nesse habitáculo, pelo sobrinho, junto do seu corpo encontra-se o cadáver de uma mulher desconhecida. Ambos nus. Em falta apenas um dos manuscritos que estava à mercê do tio. Terá sido um judeu ou um cristão a cometer o duplo homicídio? Será que o praticante de Cabala andava a trair Ester? Será que Abraão fora morto pelo marido dessa mulher?
Como conta o narrador, quando ele viu o seu mestre espiritual morto sentiu uma imensa perda: «Um terror gélido percorreu-me as tripas (…) quando tomei consciência de que estava só, de que nunca mais teria comigo o meu mestre.» Berequias enche-se de raiva e com grande sentimento de vingança e procura descobrir quem assassinou o seu tio. Esta obsessão preenche a acção da maior parte de O Último Cabalista de Lisboa (originalmente publicado em 1996 pela Quetzal) que chegou às livrarias conjuntamente com A Sentinela, o novo romance com o carimbo Porto Editora, do autor nascido em Nova Iorque.
Ainda sobre O Último Cabalista de Lisboa há que dizer que enquanto fascinante historicamente e perfazendo um relato verídico de uma época pouco abordada na literatura, e se caracterizado como obra ficcional, é um livro que tem uma boa dose de suspense mas tem a seu desfavor um protagonista que não cativa o leitor e um epílogo sem fulgor. Se o livro tivesse sido abordado, no seu completo, como obra não-ficcional — que o é —, sim, a leitura seria outra. Como livro de ficção vale menos do que como livro de não-ficção. Após terminada a leitura de O Último Cabalista de Lisboa e tendo conhecimento da origem e autor dos manuscritos originais, consigo apenas nomear Richard Zimler como co-autor deste livro.

6 comentários:

tonsdeazul disse...

Ora aqui está um autor que nunca li, mas que tenho alguma curiosidade em descobrir. Pretendo até começar por este "Último Cabalista de Lisboa".
Boas leituras!

kassie disse...

Deste autor só li Meia-Noite ou o Princípio do Mundo e fiquei fã. Tenho que ler este :)

macy disse...

Gostei imenso deste livro e adoro a obra do autor mas tenho de concordar em certa medida contigo quando dizes " consigo apenas nomear Richard Zimler como co-autor deste livro."
Teresa Carvalho

lady hélène disse...

Parece ser um dos livros mais marcantes deste autor. Espero vir a lê-lo.

RPS disse...

Não concordo nada com o ultimo paragrafo da tua critica. O autor nunca esconde que esta é uma obra não ficcional daí não entender os teus "ses". O Zimler, conforme indicado no inicio, informa o leitor que o que irá ler nada mais é uma tradução dos manuscritos do Zarco.
Aliás teria sido importante a tua critica começar, de imediato, com essa informação para esclarecer possíveis duvidas aos teus seguidores.
Continuação de boas leituras e parabéns pelo Blog.

RPS disse...

Viva
esqueça o meu comentário pois,após alguma investigação, verifiquei q estava errado.

1 abraço