quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

«A Montanha e o Titanic», de Luísa Franco

Editora: Parsifal
Data de Publicação: Fev. 2014
N.º de Páginas: 196

Foram seis os portugueses vítimas do naufrágio do Titanic: José Joaquim Brito, Domingos Coelho, Manuel Estanislau, José Neto Jardim, Manuel Franco e Álvara Bitancurt. O primeiro do continente, os quatro seguintes naturais da Madeira e a única mulher era açoriana. Todos morreram a 15 de Abril de 1912. Poucos dos descendentes destes homens que viajavam com destino à América em busca de riqueza, ainda vivem hoje com memórias dessa época, inícios do séc. XX, dos dias de miséria e isolamento, condição da insularidade de quem nasce ilhéu. É o caso de Luísa Franco, autora de A Montanha e o Titanic, romance memorialístico que iniciou e terminou com muito custo físico e emocional.
Fora diagnosticado a esta professora um cancro no mesmo dia em que se reformara do Ensino, após trinta anos a educar jovens na Vila da Madalena, na Ilha do Pico. Foi esta doença que consciencializou esta mulher «isolada no meio do Atlântico», sobre a efemeridade da sua vida e foi a força motriz que a professora estava necessitando para escrever a história dramática dos seus avós Manuel e Álvara, e assim, de uma certa maneira, fazer da escrita um processo catártico, pois Luísa nunca conseguiu esquecer essa tragédia que lhe levou os avós.
O romance está dividido em duas partes. A primeira é totalmente verídica, e é a que Luísa ouviu contar pelo seu pai Tomás Franco, o único filho dos avós, o que ficou na Ilha da Madeira em 1912, enquanto os pais partiam do Funchal para Inglaterra, para de lá embarcarem no majestoso e estreante barco que diziam ser inafundável, o Titanic. Nesta parte a autora traça a genealogia da sua família, desde a geração dos seus bisavós Afonso e Palmira, que viviam no Pico, nos Açores. Conta que o bisavô, em 1907, após a morte da avó (e do cão) viajou até ao Funchal com a filha Álvara, para embarcarem para a América, mas a avó havera se apaixonado por um chapeleiro natural da Calheta, na Ilha da Madeira, Manuel Franco, e deixara o pai viajar sozinho. Os jovens casaram-se, tiveram um filho, Tomás Franco (o pai de Luísa) e seguiram também o sonho americano, fazendo tenções de vir buscar Tomás após fazerem algum dinheiro. A primeira parte deste livro termina até onde os factos são conhecidos, até Tomás e Álvara embarcarem no Titanic. Intercruzado com estes relatos a autora descreve a atmosfera social, económica e cultural das duas ilhas onde as suas famílias viveram: a Madeira e Açores
Na segunda parte, que começa na pág. 83, a autora introduz pela primeira vez ficção na história, e narra a viagem dos avós no Titanic, do dia 10 de Abril até ao trágico embate com o icebergue e afundamento.
Ao longo do livro Luísa Franco descreve amiúde a evolução da sua doença — «a Besta», como ela a trata —, relata as visitas que recebe de três amigas médicas que lhe incentivam a fazer cirurgia no continente, e dá a conhecer ao leitor parte da sua vida do foro íntimo («Tivera tudo o que desejara. Sexo, casamento, filhos, não tinham feito parte do meu plano.») sem qualquer pudor, como como lidara com a sexualidade, a solidão, etc., e claro, fala-nos da «Montanha» (Montanha do Pico, a mais alta de Portugal), a que contempla pela janela, enquanto os seus dedos escrevem as páginas de A Montanha e o Titanic.
Em algumas páginas do livro a escrita de Luísa é angustiante, penosa. A dor que sente transpõe o papel. Frases como «Acordo hipnotizada pelo fluir do romance e violentada pelas dores que se me entranharam no corpo.» (p.122) ou «A violência das minhas dores projectam-se no romance» (p. 191) acompanha-nos, enquanto torcemos para que a ampulheta do tempo não se gaste, antes do tempo.
A Montanha e o Titanic, livro de estreia e ao mesmo tempo póstumo, é uma obra autobiográfica que se lê intensa e dramaticamente numa tarde. É um testemunho triste, mas ao mesmo tempo um exemplo de coragem e de homenagem que uma mulher presta aos seus avós, 100 anos depois. Um livro singular. Emocionante.


Excertos:
«Paradoxalmente, se o meu intento for bem-sucedido, toda a minha vida se resumirá a uma noite. A noite do dia em que soube que ia morrer.» (p. 17)
«Conviver todos os dias com algo ou alguém que nos é infinitamente superior não nos amesquinha nem nos humilha. Reconduz-nos à nossa pequena dimensão, ao horizonte exíguo das nossas dúvidas. Sabemo-nos limitados. Não estreitos, não mesquinhos. Apenas limitados.» (p. 23)
«Hesito fortemente, fortíssimamente, em descrever a morte da Avó Álvara e do Avô Franco. Ela desassossega-me as noites, quando faço por dormir e não consigo. Nem o vulto espectral da Montanha me alivia as dores, disseminadas por todo o corpo, inundando-me a consciência.» (p. 120)


9 comentários:

Ana Branco disse...

Muito, muito curiosa para ler o livro! Parece sem dúvida uma obra a não perder!

isabel magalhaes disse...

O título deste livro é...apelativo, estou curiosa para o ler.

Bela disse...

Devido ao assunto do livro estou muito interessada em lê-lo, penso que será muito interessante. Estou a pensar seriamente em adquirir esta obra.

patricia dias disse...

próxima aquisição para mim:)

Susana Silva disse...

Também eu fiquei curiosa, pois o tema é apelativo e com portugas á mistura. Decidamente na minha lista must read.

dezembro disse...

Gostava de ler, parece interessante

Raquel Lima disse...

Pela sinopse, parece um livro com todos os ingredientes necessários para uma boa leitura!

Fátima Pimenta disse...

Sinopse muito interessante. Fiquei muito curiosa...

Os Bolos da Inês disse...

Este livro deixou-me curiosa...uma ideia brilhante, e espero que a senhora se consiga recuperar da Besta...