domingo, 6 de julho de 2014

«Os Paraísos Artificiais», de Charles Baudelaire

Ano de publicação 5.ª edição: 2010
N.º de Páginas: 168

Com tradução para português de José Saramago, em 1971 (a data da 1.ª edição), Os Paraísos Artificiais teve a sua publicação original em 1860 e causou alguma celeuma no meio literário francês. Na obra, de carácter ensaística, Baudelaire escreve sobre os efeitos que tem no corpo e mente o consumo de ópio e de haxixe, as drogas que o poeta diz serem as mais capazes de criar o «ideal artificial». Tendo como base a sua própria experiência enquanto «comedor de ópio» durante dez anos, Baudelaire relata alguns desses episódios artificiais que presenciou nos amigos, poetas e intelectuais franceses seus contemporâneos, que caíram nesses vícios.
Charles Baudelaire antes de escrever Os Paraísos Artificiais traduziu para francês Confissões de um Comedor de Ópio, do escritor americano Thomas de Quincey. Se na primeira parte do livro é o haxixe a droga de que fala Baudelaire, na segunda e terceira partes ele faz uma análise desmistificadora sobre o ópio, fazendo usufruto do conteúdo do livro de De Quancey para apresentar as suas ideias sobre a matéria.
O autor de Les Fleurs du Mal estabelece uma comparação entre os efeitos do álcool, do ópio e do haxixe, e define muito claramente as suas diferenças: o vinho causa um «prazer crónico» e perturba as faculdades mentais, enquanto que o ópio causa um «prazer agudo» e introduz no processo mental a «ordem suprema e a harmonia.» Em relação ao haxixe, «um mal-estar na alegria», cria «a exageração da circunstância, do meio e do próprio indivíduo que dele depende.»
Tudo o que o autor, um «literato profundo e erudito» (segundo o próprio), escreve nesta obra tem carácter autobiográfico, embora ele escreva na terceira pessoa. O tom que o poeta insere aos ensaios está engalanado de humor e perspicácia. Baudelaire fala para e faz perguntas ao leitor constantemente, ao longo do livro; cria uma empatia desde o início com quem faz confissões sobre a sua juventude, mais especificamente quando teve de fugir de casa para estudar em Londres e depois, sem ajuda dos pais, teve de pagar os seus estudos, e por falta de dinheiro teve de passar fome. Conta que quando esteve doente foi o ópio que lhe curou muitas das «dores» de que patecia, quando um colega recomendou-lhe experimentar a droga.
No fim do livro alguns poemas sobre o vinho, haxixe e ópio dão término à obra com a beleza poética inigualável de Baudelaire. Com Les Paradis Artificiels Charles Budelaire diz que quis provar que «os buscadores de paraísos fazem o seu inferno, preparam-no, cavam-no». Excelente obra.


Excertos:
«O vinho é semelhante ao homem: não se saberá nunca até que ponto se pode estimá-lo e desprezá-lo, amá-lo e odiá-lo.» (p. 148)
«Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.» (p. 166)

1 comentário:

maria dias disse...

parece muito interessante...goatava muito de lê lo...