terça-feira, 12 de dezembro de 2017

«Allumette», de Tomi Ungerer

Editora: Kalandraka
Data de publicação: 17/11/2017
N.º de páginas: 40

É época de Natal e a cidade está cheia de transeuntes, que em frenesim entram e saem das lojas. As pessoas estão tão concentradas no que para elas é tido como essencial, que por nenhum momento reparam numa menina com ar sombrio e tristonho que tenta vender caixas de fósforos. Allumette, a menina com aspecto raquítico e moribundo, não tem casa, deambula pelas ruas e os restos de comida que encontra nas lixeiras são o seu único sustento.
O frio e a fome amarguram o âmago desta criança órfã que gostava também de sentir o espírito de Natal, mas todos a olham de soslaio, com indiferença; é chamada de «verme» e «monte de lixo».
Já no fim da noite, «Allumette parou junto de um prédio em construção. Com o último fósforo que tinha, acendeu uma fogueira» e incandescia-se um pequeno incêndio. Assustada com a luz do fogo, ela tenta fugir o mais rápido possível, mas as suas forças impedem-na de ir até muito longe. Desfalecida, caída no chão, e a julgar que os seus últimos momentos de vida estavam a se esgotar, Allumette começa a rezar e a vislumbrar coisas que nunca teve: bolos, perus, bonecos, camas, televisores, banheiras, etc. Mas o que ela não imaginava é que «alguém a tinha escutado».
Em Allumette (1974), o autor e ilustrador francês Tomi Ungerer (n. 1931), cuja produção literária contabiliza cerca de 140 obras, aponta o dedo a comportamentos inapropriados de uma sociedade que rege-se pelo preconceito, crueldade e superficialidade. A pequena protagonista, embora frágil é destemida — esta dualidade é um dos elementos que estão presentes em muitos dos livros do autor; numa entrevista, Tomi Ungerer afirmou: «Eu acho que é crucial mostrar às crianças que, independentemente das falhas de qualquer um, sempre há uma maneira de sobreviver e vencer por ser diferente e tirar o melhor proveito do que tem. Quero mostrar às crianças que todos são diferentes, mas igualmente únicos.»
As aguarelas que dão vida a esta história têm cores vivas, mas é o preto a cor que predomina, nos contornos das figuras e nas manchas que servem de pano de fundo para algumas ilustrações. Este estilo sombrio evidencia a dor e o sofrimento de Allumette que acompanha as primeiras páginas da história; no entanto, dado que com o evoluir da ação a sua vida ganha cor e esperança, talvez o autor pudesse ter suavizado mais este efeito nas últimas ilustrações. Em todo o caso, em nada este pormenor técnico minimiza a mensagem de esperança, justiça e resiliência que ele faz passar através desta história inspirada no clássico A menina dos fósforos (1845), do escritor Hans Christian Andersen (1805-1875).

3 comentários:

Paula Dinis disse...

Conheço esta história . A menina dos fósforos , mas não gosto do final, tem um final infeliz :(

Miguel Pestana disse...

Paula, no livro 'A menina dos fósforos', do escritor Hans Christian Andersen, sim, o final é triste. Neste não.

clara duarte disse...

Nunca li, mas adorava.