sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

«Para lá do inverno», de Isabel Allende

Edição: Porto Editora
Data de publicação: 02/11/2017
N.º de páginas: 336

Após a incursão no romance policial (O Jogo de Ripper, 2014), tendo retornado ao romance romântico (O Amante Japonês, 2015), Isabel Allende está de regresso com um novo livro arrebatador, bem ao estilo que habitou os seus leitores de todo o mundo — a sua obra está traduzida para 35 idiomas e já vendeu mais de 67 milhões de exemplares até ao presente.
A escritora chilena iniciou a escrever todos os seus 22 livros a 8 de Janeiro. Mantendo o seu ritual, Para lá do inverno (tradução de Ângela Barroqueiro a partir do original Más allá del invierno) começou a ganhar forma nessa data em 2016.
Richard Bowmaster e Richard Maraz, ambos sexagenários, e a jovem Evelyn Ortega, são os protagonistas desta história contemporânea, ambientada no final do primeiro mês de 2016, quando uma intensa tempestade de neve assola Brooklyn. Um pequeno acidente entre dois carros impulsiona a junção na mesma casa, em modo “reféns” da tempestade, destes três indivíduos.
Richard é um professor universitário austero, prudente e negativista, tem medo da morte e vive com alguns gatos. Ele é também chefe de Lucía na Universidade e seu senhorio — ela vive na cave. Nascida no Chile, mas vários anos exilada no Canadá, tendo-se mudado para Nova Iorque há poucos meses para ultrapassar um divórcio e uma doença, Lucía é uma mulher de carácter forte e resiliente. Evelyn Ortega é guatemalteca e vive ilegalmente nos Estados Unidos. Tem um medo tremendo do patrão, que dedica-se ao tráfico humano. Quando esta mulher gaga e frágil aparece na casa dos professores para pedir ajuda, os três iniciam uma jornada de três dias de tensão, de inter-ajuda e de partilhas e, inesperadamente, são criados elos de amizade e de amor. E as suas vidas mudam, radicalmente.
Aos 75 anos, Isabel Allende prova com Para lá do inverno que a sua escrita está tão fluida, intensa e acutilante como quando ela estreou-se na literatura com A Casa dos Espíritos (1982). Neste romance, a escritora capta com perícia algumas das mais tenebrosas fragilidades humanas e passa a mensagem de que todos temos a possibilidade de renascer das cinzas.
Em capítulos alternados, passado-presente, Allende, muito gradualmente, vai apresentado ao leitor os pretéritos traumáticos que as figuras centrais desta história tiveram. Richard, Lucía e Evelyn são especialistas em perdas, em superar lutos, e tiveram que aprender que os períodos tristes não duram para sempre: existe algo risonho à nossa espera para lá do sombrio agora, quando o vivemos.
Referir que as primeiras 100 páginas do romance são um pouco ambíguas, no sentido em que muito pouco a autora nos revela sobre os contornos passados dos personagens. Nas derradeiras páginas finais, esses passados vêm ao de cima, através de uma narração intensa que nos deixa sem fôlego. Talvez Isabel Allende pretendesse exatamente criar suspense no leitor, e não facilitou abrir as cortinas da história muito cedo.
Isabel Allende, que separou-se em 2015 do companheiro com quem viveu durante 28 anos e reencontrou um novo amor enquanto estava escrevendo Para lá do inverno, em entrevista recente ao Observador confessou: «Estava num desses longos invernos emocionais que às vezes acontecem na vida. Passei por invernos semelhantes, como o exílio, a morte da minha filha e dois divórcios e sei que os invernos não duram para sempre: há sempre a possibilidade de um verão. Escolhi escrever sobre três personagens traumatizadas que estão presas num inverno emocional, como eu estava.»

Excertos
«(…) o estranho poder curativo das palavras, de partilhar a dor e de verificar que os outros também têm o seu quinhão; as vidas são parecidas e os sentimentos são semelhantes.» (p. 302)

«O único remédio para tanta desgraça é o amor. Não é a força da gravidade que mantém o universo em equilíbrio, mas a força da atração do amor.» (p. 304)

Sem comentários: